Pesquisa realizada na Inglaterra encontrou bactérias causadoras da gengivite no cérebro de pacientes com Alzheimer

Pesquisadores encontram relação entre gengivite e Alzheimer
University McGill / divulgação
Pesquisadores encontram relação entre gengivite e Alzheimer

Um estudo realizado pela University of Central Lancashire (Uclan - Inglaterra) foi pioneiro em apontar uma possível relação entre as bactérias causadoras da gengivite e o mal de Alzheimer. Denise Tibério (CRO-SP:   15057), presidente da Câmara Técnica de Odontogeriatria do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo, avalia que "a doença de gengiva, por ativar uma resposta inflamatória intensa do organismo, é um fator de risco para doenças sistêmicas e pode ser um gatilho para o Alzheimer".

O Professor Stjohn Crean e o Doutor Sim Singhrao examinaram amostras de cérebro doadas por dez pacientes com demência e dez pacientes sem a doença. Eles encontraram indícios da presença da bactéria Porphyronomonas gingivalis - uma das causadoras da doença periodontal - nos pacientes que sofriam do mal de Alzheimer.

Devido ao sangramento da gengiva, característicos da gengivite e da periodontite, as bactérias entram em contato com a corrente sanguínea e podem se alojar em outros órgãos do corpo.

"A suspeita é que essas bactérias matem as células do cérebro. Esse impacto negativo já está confirmado no caso da endocardite, quando encontramos bactérias relacionadas à doença periodontal no coração, podendo levar a insuficiência cardíaco, infarto e até morte", alerta a cirurgiã-dentista Viviane Fellows (CRO-RJ: 42 816), do Atelier Odontorio.

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Alzheimer é multifatorial

A ciência ainda não tem uma única resposta para o surgimento do mal de Alzheimer - ou seja, trata-se de uma doença multifatorial, cujos primeiros sintomas aparecem nos pacientes por volta dos 60 anos.

"A maioria dos primeiros pacientes que foram diagnosticados com demência eram desdentados e por isso não era possível fazer a relação com a doença periodontal. Hoje, muitos pacientes preservam os dentes e por isso estamos estudando essa relação", explica Denise.  

Embora não haja ainda uma palavra final sobre o tema, Denise observa que muitos pacientes com mal de Alzheimer chegam com a saúde bucal bastante comprometida: "Quando eles chegam, a doença periodontal está muito avançada. Tenho relatos de familiares de pacientes que notaram melhora nos sintomas da demência após o tratamento bucal. A minha experiência clínica aponta nessa direção [de haver uma relação entre as duas doenças], mas ainda não há uma revisão científica ".

Gengivite é uma doença silenciosa


Gengivite é uma doença silenciosa
Getty Images/Photodisc
Gengivite é uma doença silenciosa

A doença periodontal é causada pela ação da placa bacteriana, também chamada de biofilme, junto à gengiva. A placa é uma película incolor composta por bactérias e restos alimentares que se acumula entre os dentes e junto à gengiva. Ou seja, até que ocorram sangramentos na gengiva, é difícil ao paciente notar seu desenvolvimento.

Três fases caracterizam a doença: gengivite, periodontite e periodontite avançada - quando existe risco elevado de perda do dente.

"Noventa por cento dos casos de gengivite são causados por má higienização. O paciente não usa fio dental porque sangra, mas só sangra porque ele não usa fio dental. A população precisa se conscientizar que a periodontite é uma doença séria", afirma Viviane.  

Para prevenir a doença, é importante escovar os dentes após as refeições e, principalmente, antes de dormir, com uma escova de cabeça pequena e cerdas macias;  também é necessário  complementar a higiene bucal com uso do fio ou fita dental e de um enxaguatório bucal sem álcool.

A visita regular ao dentista a cada seis meses permitirá um diagnóstico precoce. Vale destacar que no Brasil, já há profissionais que realizam atendimento domiciliar para pacientes na terceira idade ou com demência.

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Como é o tratamento da gengivite

O tratamento varia caso a caso, conforme a gravidade. Assim, os pacientes passarão por um processo de limpeza profunda, mas haverá quem precise ser medicado com antibióticos. A doença requer acompanhamento do especialista a cada seis meses.